Sobre o autor: Piero de Manincor Capestrani é servidor público estadual (com orgulho). Também é pai, filho, neto, sobrinho, tio, irmão, do Espírito Santo, amém. Adora escrever e ler. Não conseguirá ler todos os livros, mas continuará tentando. Sobre o blog: Escrita MCP nasceu em maio de 2013. Forma natural do transbordo da escrita. O papel se sente tão solitário na gaveta. Pede mais. Não há só literatura, nem só Direito, nem só desenhos, fotos, vídeos. Nada só. Tudo sobra.
13.6.15
Jornal de Valinhos
Com alegria anuncio que ontem foi publicada a segunda coluna que assino nas segundas sextas-feiras dos meses no Jornal de Valinhos. Periódico semanal disponível nas bancas de Valinhos e Vinhedo. Confiram.
6.6.15
Índio urbano
Apertamento sem sol
Tempo livre na horta comunitária
Trabalha na portaria
Detesta o aerosol
Perfuma o quarto com terra
Toma banho frio
Rio
Ele diz: erra
Do automóvel não vê graça
Asfalto é como uma pinta no solo
Atos dos homens com dolo
Não eventuais, sem cachaça
Evolução da árvore abaixo
Ser humano pequeno
Semeia seu próprio veneno
Ela saiu –, acho.
MCP
31.5.15
A reprodução humana.
O homem, racional, parece
se distanciar cada vez mais do que chamou de natureza. Poluição, devastação das
florestas, produtos artificiais, grandes cidades.
As advertências constantes
da extinção da espécie, a continuarmos nosso modo de vida, surtem pouco ou
nenhum efeito na consciência humana. O esforço do sustentável falha. Não
queremos dispor do conforto moderno.
Entretanto, a preservação
do ser vivo bípede dotado de razão continua. Apesar das dificuldades nascem
bebês. A taxa de natalidade mundial está longe de sofrer qualquer tipo de
controle generalizado e, assim, qualquer forma de retração significativa.
Reproduzir, em regra, é
natural. Basta o encontro da fertilidade com a copulação. Nove meses depois mais
um ser humano.
A questão a ser enfrentada
aqui é quão normal é a gestação para nossos semelhantes. Por conta desse distanciamento
da natureza (somos e ela é – são dois), ter ela no ventre é algo desconectado
do cotidiano. Não parece natural, é diferente de tudo, não soa humano.
Escrevo, aliás, como pai.
A mãe, porém, ao meu lado, confirma. A maternidade tem começo, meio e a espera
pelo término, abstrato, é surpreendente. A natureza bate na porta, entra e não
deixará os cômodos do homem.
Todas as conquistas
tecnológicas, as descobertas científicas, a história, perdem muito seu sentido.
A gestação, única, é desconectada do homem. Pede licença, paciência, força e
fé. Esperança de novo entendimento entre humano e natureza. Volta da unidade.
Do natural. Do normal. Do princípio.
Acima de tudo, não somos
filhos, nem pais. Somos a própria natureza. Façamos as pazes com ela.
26.5.15
Escrever como profissão.
O balcão é frio. O
julgador é técnico. A vida é longa. A praia é morna.
O convite do escritor vem
simples: escreva. Prazo, estilo, molde, conteúdo. O trabalho-prazer, o
tempo-proveito. Não é assim.
Escrever hoje é fácil.
Quero, procuro, passo a ideia em tinta. Transformação. Amanhã, não. Gostaria de
caber em livro maior, com superior tiragem, mais publicidade. Usufruir.
No entanto, o suor nasce
dele mesmo. Começo. Caneta, papel, reflexão, paixão dosada. Dúvidas. Componho.
Releio, corrijo, reviso, risco, insiro, mudo. Desisto, recomeço. Outro dia.
Negativo. Na mesma hora.
A palavra vem. Sozinha.
Com conectivos, fraseada, pontuada para mais para menos. Estudada.
Enfim, escrever não é tão
difícil. O desafio é outro. É o outro. O texto nasce morto. Engavetado tem
pudores. As campainhas silenciam, o verbo apodrece. Publicar é divertido.
Por isso, escrevemos sim
todos os dias. Falta-nos coragem. Teimosia da hora “perdida”, dos olhos
cansados, da tinteiro entupida.
Terminei. Não sofri tanto
assim.
18.5.15
Farinha.
Ela gosta de acompanhar o
caminho da encomenda dos Correios. Chegou lá, já perto de cá, saiu para a
entrega. Compra distraída – as duas.
Ele prefere molhar papel
higiênico. Faz bolas e joga no teto do banheiro do restaurante. Ensinou o
primo. Já miram os espelhos. Mijam nos cestos de lixo – impunes.
Otávio é sozinho, quieto.
Não tem amigos imaginários. Basta em si. Costuma andar por aí com seu kit
aventura na mochila das costas. Uma corda escorregadia, uma lanterna de
respeito, o canivete.
O melhor amigo usa óculos,
é gordinho. Tem muitos jogos de tabuleiro. A mãe troca-se na frente das
crianças. Os bonequinhos ganham enredo, cenários no jardim de inverno e voltam
para a caixa seguros.
A colega de trabalho usa
vestidos curtos demais. Quer julgar, mas corre mais que as pernas finas e
sofridas. Tem a mesa de trabalho desorganizada.
João é quatro. As letras e
as cestas que estavam destinadas na sua vida. Esporte de pontos duplos, ele de
artilheiro. Cansaço das metralhadoras, indecisão dos pés limitados.
Maria, sua filha. Desperta
Luiz Melodia nos outros. Piano no alto. Cidade intacta, tensão flutuante sadia.
Todas as faces misturadas.
Papéis preenchidos, sabidos, queridos. Bolo no forno. Fogo brando. Traga mais
farinha.
17.5.15
O gato escritor.
A escrita é arte como as outras. Pega-se prática, firmeza e confiança nos movimentos. Caligrafia, gramática, leitura, experiências. Cópias, influências, um gato preto respirando forte ao lado – companhia do escritor. Jovens ainda – o gato e o escritor – mas estão aí. Um a escrever outro a tentar paciente não andar no caderno, não dar leves patadas na tinteiro. Conseguem. Dispersam, rodeiam, contudo, insistentemente, encarregam-se de suas bravas funções.
O gato é equilibrista. Sem
receios passeia por altos fios com agilidade. Pula, se agarra, cai de pé.
Quem se mete a escrever
tem algo de gato. As letras são finas, miúdas peças do mar de considerações,
vaidades, tensões humanas. O escritor é curioso igual ao gato. Quer saber como
é ver as coisas lá do alto. Para, posição segura de felino, as quatro patas no
chão – pontua. O texto é sempre a corda bamba. Não há meio de saber como nem
quando ventará, se algo assustará o gato e o equilíbrio se perderá. Por isso,
eles vão alto. Procuram suas musas e alimentam-se pelo caminho. Curiosidade,
coragem, pulgas e ventos fortes.
12.5.15
Jorge usa óculos.
Jorge
usa óculos daqueles com o barbante de segurança ou de apoio no pescoço. Não
tira muitos seus óculos nem os deixa cair. Acha o barbante bonito. Cara de
escritor, gente séria.
Ele
também gosta de usar chapéu panamá. Comprou para proteger sua cabeça do sol. Se
pudesse usaria um chapéu mexicano. Aquele com as abas enormes. Contudo, exerce
certa profissão mais séria que ele. Mais solene que seus óculos de barbantes.
Só um pouco mais nessa última comparação.
Ainda,
o mesmo Seu Jorge, usa barba. Barba jovem é verdade. De falhas novas, bagunças
desconhecidas. Não harmoniza muito bem o crescimento dos pêlos com as donas
tesouras e lâminas de barbear ou com o senhor barbeador. Embora, a sua mulher
já tenha insistido e até certa vez cortado algumas pontas que entravam na boca
dele.
Também
outras coisas, porém as mesmas ideias.
Jorge
mora na lua, diz o trecho da música. Esse não, se bem que gostaria de passar
umas férias lá. O cara é apenas romântico. Com ele mesmo. Pensa que se se imaginar
duende na Duendolândia realmente será esse ser fantástico. E é.
Somos
todos.
Por
que criar um itinerário para o trabalho e permanecer nele, sem quaisquer
mudanças, durante anos? Desculpe-me (diz Jorge), mas tô fora. Se carro, ônibus,
se bicicleta, a pé, se avião, barco, se cordas, pontes, se aquilo, aquiloutro.
O homem veio para inventar, reinventar e destruir. Para inventar de novo. E de
novo. Mudar.
Ah,
não gosto de mudanças. Aprecio minha cadeirinha no meu gabinetinho, daquela
minha cidade queridinha. Nããão. Jorge quer conhecer mais. Acredita que haja
mais. Então, lê, relê, escreve. E não se contenta, mas tenta.
Jorge
usa óculos.
5.5.15
Leite achocolatado.
Há
certo tempo quero escrever um texto “e se” para a melhora da humanidade. Vivo
ouvindo (e concordando) que se queremos ser felizes precisamos buscar também a
felicidade do outro. Algo como “amar o próximo como a si mesmo” e “não faça aos
outros o que não quer que façam a você”. Ocorre que as ideias para os “e se”s
não fixam muito bem na minha cachola. Tentarei. Afinal, outro ensinamento diz
que é fazendo que se aprende.
Penso
na reação em cadeia. “E se” 1, “e se” 2, “e se” 3 e assim por diante. Boas
práticas que acarretam outras e mais e pronto. Resultados. Falta a ideia a ser
espalhada. Não qualquer uma. “A” sacada, “o” movimento que dará a efetiva
pulsão para a melhora significativa da condição humana.
Talvez
isso não exista.
Em
uma conversa desses dias me disseram que há um inconsciente coletivo pairando
entre as pessoas. Um ato distante poderia ser vivido na mente de outro indivíduo
– há milhares de quilômetros. Diz-se que tudo já foi pensado ou feito. Não há
nada mais para inventar ou fazer. O ser humano já teria esgotado toda sua
criatividade. Discordo.
Um
“e se” fácil de imaginar (você já deve ter tido ele) é o do um real. Precisamos
trabalhar (de alguma forma, tenha certeza), seguir o sistema social em que
vivemos e, suados, recebemos uns trocados. E se um milhão de pessoas colocassem
um real na minha conta bancária na mesma hora? Poxa, com certeza há assim tantas
pessoas (talvez até na minha própria cidade) que podem dispor de um mísero um
real para depositar na minha continha. Isso não acontece. E provavelmente não
acontecerá. Por que? Usaria bem esse um milhão. Sou um cara legal. Esqueça.
Ok.
Posso pensar em um “e se” mais altruísta. E se conseguisse reunir dez mil
cidadãos dispostos a doar um quilo de alimento não perecível à instituição de
caridade ‘x’? Isso já parece mais provável. Talvez alguém já tenha conseguido.
Não sozinho (ou sozinho mesmo), mas com a ajuda de dez ou quinze pessoas
influentes. Com o auxílio de uma boa causa, como salvar a vida de determinada
criança ajudada por essa entidade ou com um outro digno chamariz.
As
pessoas estão aí. Existem boas medidas de solidariedade e conquistas pessoais
(desde que boas). Podemos achá-las (as pessoas e essas boas medidas). E, veja
bem, não esquecer exatamente isso – que não poderemos ter contentamento
sozinhos, mas com os outros. E eles, fazendo parte da nossa alegria, estão
dispostos.
Talvez
seja isso, afinal. Os “e se”s sim existem, contudo são, e sempre serão,
coletivos e cíclicos – como a vida.
(Outra
coisa que acredito é que a vida nunca será (nem perto disso) um grande mundo de
faz de conta com ‘felizes para sempre no final’. Desencana, meu caro. Todavia,
claro, podemos aplainar melhor as arestas da nossa santa cadeira. Pode começar.
“E se eu desse bom dia para o mala do meu vizinho?” Boa. Essa era a ideia do
texto. Sujeito inteligente você.)
3.5.15
João-de-barro II.
João é outro? Trocou paixões, tem mais auto-confiança. Conquistas frequentes. Lembra mal de certas épocas. Tenta esquecer? Temos limite de memória? Passou do ponto precisa registrar em cima? João mudou. E na mudança precisamos nos desfazer. Não por inteiros, mas pelo percentual adequado. 10%, 20% ou mesmo até 90%. Radicalismo, dirão. Muito 'ão' nunca foi problema para ele. Sempre achou a maioria complicada demais. Voltando, ele está preocupado. Não queria ter mudado isso ou aquilo, pensa. Quer visitar antigas práticas. Adia. De novo. João não era assim. Ia. Sim, é outro. Amanhã a mesma coisa. E tudo bem. Que bom. Está insatisfeito.
Esse texto é uma homenagem às nossas lembranças. Cada momento, cada João. Mas, também ao nosso futuro. Porque, somos ao mesmo tempo o reflexo de ontem e a fôrma de amanhã.
Esse texto é uma homenagem às nossas lembranças. Cada momento, cada João. Mas, também ao nosso futuro. Porque, somos ao mesmo tempo o reflexo de ontem e a fôrma de amanhã.
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