16.7.17

Resenha: Cegueira sem ensaio, de André Barretto. Publicação independente, Campinas, 2017.

Nada é impossível, já te disseram. Feche os olhos, confie. Agora, mexa-se. Não, controle-se e mantenha os olhos cerrados. A vida já é desafiadora. Imagine-se enfrentá-la sem poder enxergar. O choque inicial, os primeiros dias, a esperança de voltar a ver, a aceitação, a nova vida.
O livro conta como doze pessoas venceram o desafio da cegueira adquirida no decorrer da vida.
Relatos como o da mãe que esqueceu o rosto de sua filha mais velha ou de como outra personagem conseguiu seu primeiro estágio em uma grande empresa. André apresenta o progressivo "retorno" da visão daqueles que se tornaram cegos durante a vida.
Você sabia que o mundo dos cegos não é escuro? O cérebro continua à mil por hora e é capaz de criar imagens, mesmo sem luz. O odor, o som, o tato. Os sentidos potencializados.
A cegueira é sim uma difícil limitação, pois tão automático é ver. Mas, não é desculpa para abandonar os próximos passos. Histórias de casamentos, filhos, muito trabalho, esporte, independência doméstica e social, inclusive financeira.
A impressão das páginas é uma arte e revela esse caminho de descobertas de um mundo muito mais amplo do que você possa imaginar. A cegueira não é um fim, mas um outro começo.


15.7.17

Comemoro

15 anos exatos. 15.7.2002.
Recentemente, anunciei o feito. O entusiasmo permanece. Repito, então, a dose. 
Tenha o hábito da escrita. Física, sim. O mundo digital é tão frio, intangível. O computador, me desculpem, não me traz confiança. Prefiro o papel, a tinta e seu cheiro característico.
Você não precisa chamar de diário. Parece coisa de menina, eu sei. Nomeie como caderno de anotações, espaço de ideias. Rascunho. Mas, tenha um. Guarde na gaveta. E use quando quiser, não precisa ser diário.
Faço isso há quinze anos com certa regularidade e os frutos vieram. Melhora na comunicação, publicações, leitores, satisfação pessoal. O primeiro livro impresso ainda virá, tenho certeza. Mas, já tenho textos em Jornal impresso, o que me dá muito orgulho.
O mundo digital é interessante e acessível a qualquer hora e dispõe de muitos formatos de publicação. Porém, cansa. É como escrever no ar. Os leitores sentem um cheirinho e se for bom vão espiar. O aroma vai embora, junto com a obra. O texto impresso, acredito, está mais para o próprio bolo. Seu cheiro é espalhado de outra maneira, pelos próprios leitores, saciados pelo quitute que se come de novo, se quiser. Algo assim. É diferente. Mesmo que seja só para guardar na estante. É meu, olha só. Ixe, acabou a bateria. Não. Difícil transição. Nasci ainda no tempo das enciclopédias, dos gibis, dos livros amarelados. O digital é ótimo, mas é o digital. 
É isso. Escreva. No meio físico, real, por favor.



14.7.17

XIII

naquela foto todos sorriam
     verdadeiro?
Sim
                 coisa rara
soube que ele escreve sobre nós?
Sim
Coisa boa não deve ser. Cara pessimista


Mais um registro. Logo esquecem. Ou não
É
         diz que o texto melhora a cada nova procura. como lançar o boomerang. Não volta de primeira
                                            Já leu? Romance? O primeiro dele é horrível
Nem diga. Gosto das crônicas
Ele também. mas, não quer largar
Bem, por vezes, melhora. Serve como
Prática, de qualquer forma. Fui. Eu também

9.7.17

FESTA LITERÁRIA DE VINHEDO - FLIVI - 28.8 a 3.9.2017

Não deixem de prestigiar a Primeira Festa Literária de Vinhedo - FLIVI, de 28 de agosto a 3 de setembro de 2017.
Homenagearemos o importante Monteiro Lobato. Palestras de escritores, atividades interativas, música e muito mais. Para todas as idades, principalmente para as crianças. Todos os dias das 9h às 21h, no Teatro Municipal de Vinhedo.


5.7.17

Resenha do livro Ensimesmices, de Paulo Zoppi. Ed. Substância, 2017.

A tônica da obra é sua fluidez. Contos-curta-metragens levam para o universo fantástico do escritor. Início, onda e fim. Muitas cristas mais altas com vertigens de descidas intensas (adverte o Ministério da Literatura).
Há humor, mas também sérias reflexões existenciais. Talvez seja essa a melhor combinação. O equilíbrio do duro e do leve. A espada que não pesa em demasia.
O título é escolhido com acerto. Se olharmos de novo e mais vezes para nós mesmos, a ensimesmice será inevitável.
Sou só corpo (a toda hora outro)? Meu cotidiano "sem problemas" é ruim? Qual rótulo social me serve, ou sou eu que o sirvo? Zoppi não traz as respostas, claro, já que não é um livro de auto-ajuda, embora percorra metade do caminho -- com as perguntas.



22.6.17

Capítulo décimo segundo

Proibiram-se as desistências para os novos membros
Quer entrar não sairá
Decisão unânime. Revolta cega
O que é liberdade? Liberdade é acreditar, li uma vez na camiseta da banda de rock. O ideal. Agir. Libertar-se pela ação. Deve ser isso. Concordo. 
Nossos heróis, com carrapatos nos sacos, comem raízes, bebem chá de fungos. E tudo bem. São livres.
Você, em seu sofá retrátil, bebe refri com fast food. Tudo legal. Livre.
No fim de semana ensolarado, a turma vai para o mato. Volta feliz para o chuveiro quente, o vaso de porcelana com a descarga acoplada. Esquenta a comida no microondas. O ar-condicionado é dez. Modernidades. 
Cri, cri, diz-se lá no chão escuro. Céu que se junta ao solo, ar quando circula o cômodo. 
Livre. Ninguém é livre.

27.5.17

Resenha: O dedo do diabo, K. Stalden

Conrado Amstalden, sob o pseudônimo de K. Stalden, escreveu uma bela história de humor popular. Sim, a temática é em geral alegre e positiva, e os personagens e seu ambiente lembram contos do dia a dia. Difícil interromper a leitura. Os acontecimentos são bem encadeados e a escrita flui com vigor.
O autor, que tenho o prazer de conhecer pessoalmente, é pessoa culta com afinado senso de humor. Tem ele certa fraqueza para a temática sensual feminina. Assim, a obra é fruto dessa boa mistura: humor, inteligência e putaria, digo, sensualidade (desculpem o ato falho - risos).
Nossa sociedade predominantemente católica, embora os evangélicos e espíritas cresçam a cada ano em número e relevância, defende diversos preceitos morais, como o pudor sexual, a monogamia, a fidelidade, a honestidade, a família, a abominação ao diabo, a honra pessoal e social. A ameaça da quebra desses paradigmas, mesmo que apenas nas páginas cruas de um livro, é envolvente, claro. Pelo simples motivo de que ninguém é cem por cento “algo”, sendo que dentre esses há alguns mais ou menos enrustidos.
Ateus, tarados, prostitutas, mulheres recatadas, homossexuais, o tal bem dotado, batinas pesadas. Nada que uma lua cheia não resolva.

Super indico a leitura. Afinal, nós brasileiros estamos precisando de um pouco de sadio humor ultimamente, não é?!   


20.5.17

Resenha: 1984, George Orwell

O nome do livro, que você deve ler obrigatoriamente, é esse mesmo. Ótima obra. É de 1948, escrita por George Orwell (1903-1950).
Conta a história de Winston, funcionário do Ministério da Verdade de um país controlado severamente pelo Estado. Não há espaço sequer para dormir privadamente. Câmeras e escutas por todo lado. O ideal do Governo é controlar até mesmo seu pensamento, como se chip houvesse nas suas correntes cerebrais.
O enredo é assim mesmo tenso e interessante. Difícil não lembrarmos dos tempos atuais e pensarmos como o autor teria adivinhado. Mas, lendo um pouco sobre o mote do escritor, tem-se que não era um livro futurista, mas uma crítica à própria situação de 1948, sobretudo o Stalinismo, na Rússia da primeira metade do século XX. 
Vale ler. Recomendadíssimo.
Termino com uma angústia braba: o Grande Irmão (ditador do livro) está na minha casa. E, pior, não se trata de um déspota mortal e passageiro, mas de centenas de milhares de pessoas conectadas na internet de cada dia. Merda de rede. O mesmo sistema que nos abre portas, nos observa atentamente e trata de fechar aquelas que lhe aprouver. É real. Não duvido, inclusive, que já haja meios de leitura de pensamentos. Ah, repare bem e enlouquecerá. Somos, sim, vigiados, e muito bem.
Qual o fim disso?! Não sei. Sigamos com cautela.





19.5.17

Capítulo nove

e fim
sobre a distância há silêncio, da regra vige o crime. nossos heróis estão vivos, mas são outros. Sou eu. E pronto.
Na curva da trilha, a pedra verde. encosto. o sol é frio, os ramos todos. não tenho vontade de seguir, tampouco de voltar ou permanecer alí, na branquidão. sinto fome.
Volto.
há a numeraiada sorridente. violão. fogo. o livro dos contos. Conte a todos, diz o chefe. Contei. vocês outros também, claro. e os registros estão lá. Nem todos alegres, positivos. ela, ele conversam com o nada volta e vez.
O querer é limitado. por isso, o não querer é confuso, cheira mal. normalmente, quer-se muito, mas precisa-se de tão pouco.
A sociedade ramifica-se

14.5.17

Resenha: No teto do mundo, Rodrigo Raineri com Diogo Schelp

O principal tema da obra é o desafio de escalar o Monte Everest até seu cume, mas sua leitura traz muito mais. Rodrigo é sócio de uma empresa de aventura e de treinamento empresarial baseado na superação de desafios reais, como vencer limites físicos e psicológicos, trabalho em equipe ou solo, concentração e tomadas de decisões. Por isso, o deleite da obra transpõe a curiosidade sobre o gelo e as nuvens para uma atmosfera prática e cotidiana. O que uma investida ao pico mais alto do mundo pode ensinar? Rodrigo conta.
Indico a leitura também porque a estrutura do livro é muito boa. O alpinista Raineri certamente é o dono do conteúdo, revisou, participou e aprovou o encadeamento da leitura, mas o “ghost writer” Diogo Schelp merece elogios, pois soube muito bem trabalhar com o ofício da escrita, aliando a escrita técnica do montanhismo com a literatura que, sim, há em escalar uma montanha a quase nove quilômetros de altitude.

Enfim, usufrua desse caminho literário como o Rodrigo curtiu cada metro a mais da Chomolungma (Deusa Mãe do Mundo), como é conhecida localmente. Reflita sobre seus objetivos e o que os torna especiais para você. Mais: o que tem feito para conquistá-los? Com todo o equipamento disponível, planejamentos, tentativas, ainda assim nem todos conseguem pisar no topo, ou pior, voltar vivos de lá. Sempre haverá riscos no trajeto, esse sim, talvez, muito mais importante do que atingir a meta (tem um capítulo sobre isso no livro). Viva com qualidade.