Sobre o autor: Piero de Manincor Capestrani é servidor público estadual (com orgulho). Também é pai, filho, neto, sobrinho, tio, irmão, do Espírito Santo, amém. Adora escrever e ler. Não conseguirá ler todos os livros, mas continuará tentando. Sobre o blog: Escrita MCP nasceu em maio de 2013. Forma natural do transbordo da escrita. O papel se sente tão solitário na gaveta. Pede mais. Não há só literatura, nem só Direito, nem só desenhos, fotos, vídeos. Nada só. Tudo sobra.
3.10.13
Sobre a velocidade.
Perceba a velocidade atual.
Quanto tempo você leva para responder?
Um “whatsapp”, um SMS, um e-mail, uma carta (uma o quê?)?
Longos telefonemas (fixos), onde estão vocês? Saudades.
Velocidade. Falhou. Quanto tempo para consertar? Ai, meu Deus, que demora.
Vum, vuuum, mais um carro, uma moto, um caminhão veloz. Muito veloz, acima dos limites de velocidade.
Zap, zaaap, lá se vai mais uma bituca pelo ar. Pam, tec tec teeec. Rapidamente.
Resolva. Faça. Pense.
Qual seu pedido, senhor? Senhor? Hum, hum. Ai, que cara lento. Me veja “x” + “y” – “f”. Ham, ok. Aqui está, senhor. Sim, não pedi o “f”, não quero o “f”.
Certo.
Qual a velocidade em que normalmente você caminha? Passos rápidos, apressados?
Qual a velocidade do seu teclar no computador? E no do seu “smartphone”?
Já jogou “candy crush”? Foi rápido o suficiente?
“Boa noite. No Haiti ainda não se sabe o número de mortos causados pelo terremoto. As equipes reclamam da falta de apoio das grandes potências na busca por sobreviventes. A seleção brasileira obteve a sua terceira vitória seguida no comando de Felipão. Dessa vez, contra a fraca seleção da Romênia. O dólar subiu 9% em relação ao mesmo período do ano passado. Turistas que planejaram suas férias com antecedência desistem de viajar. O Brasil descobre mais petróleo na baixada santista. A presidente diz que já possuímos reservas suficientes para a subsistência nos próximos anos. São Paulo sofre novamente com arrastões em bares e restaurantes. Só nesta semana foram cinco em diferentes pontos da cidade. A Bahia será palco do Rock in Rio 7 neste ano. Apresentações de Sting e U2 já foram confirmadas. Boa noite.”
Pegou tudo? Refletiu alguma coisa entre uma notícia e outra? Não deu tempo? Ah, tudo bem, reflita agora, então. Mas, agora tem novela. Hum, é mesmo, esqueci. Amanhã, quem sabe.
E o computador? Click, click, mouse pra lá, pra cá, abre tal programa, tela, pém, tela thum, fecha, abre de novo, ih, travou. Putz, click, click, click. Nada. Nada ainda. Ctrl+Alt+Del – finalizar, finalizar. Reiniciar, desligar. Nada. Tomada, bateria. Que desespero. Computador idiota.
Velocidade.
Velocidade das conversas, do trabalho, do estudo, da vida.
Resumos, tópicos, oi e tchau.
Relações humanas simples, rápidas, superficiais, Bém? Bém bém. Ótimo.
Na naum.
Modelos, pré isso, pré aquilo. Hum, mas quanto tempo? Tudo isso?
Prazos. Urgh. Urgh, urgh, urgh.
Enfim, escove seus dentes com calma. Preste atenção no que você está fazendo.
MCP
2.10.13
XXII. Trabalho.
Nermo gostou da resposta. Na verdade, já pensava ser único e espírito pela meditação. Mas, ficou feliz pela confirmação de seus pensamentos.
Ele queria mais, porém.
Não via a hora de nova oportunidade para perguntar.
Ela veio. Em uma
véspera de feriado, menos cansado (como a mente é persuasiva), viu um envelope
amarelo em sua mesa.
“Como Maomé não foi à
montanha, a montanha veio a Maomé. Escreva sua pergunta abaixo.”
Escreveu. “Neroy,
desculpe, as semanas têm sido corridas, sá comé, né?! De toda sorte: como
encontrar um trabalho ao mesmo tempo prazeroso e de suficiente produção de
riqueza individual?”
“A arte e a religião
são alavancas de propulsão. O resto depende de nós. Impor limites, organizar o
posto de trabalho.”
“Continuamos em outro
dia. Vejo que está que não se aguenta de cansaço (que sempre vem).”
30.9.13
XXI. Você é.
Já era tarde, frio e
Nermo estava cansado. Mas, mesmo que por um breve momento, mesmo que
incompleta, foi em busca da resposta a sua pergunta.
Havia dias sem qualquer
sinal de qualquer envelope ou outro meio de comunicação de Neroy.
Teria imaginado? Não. Queria
respostas. E quando queremos muito algo, ah, algo mágico tende a acontecer.
A resposta veio. O
envelope apareceu ao alcance de suas mãos, sem explicação, na estante de seu
quarto.
“Olá, novamente.” Dizia
a carta.
“Sua resposta, por certo
aguardada, agora se materializa. Você, Nermo, é aquilo, é isso, é somente o que
é. Sem mistérios, sem complicações. Você é. Você é o Nermo. Único.”
“Na sua vida há, além
disso, formas perceptíveis da própria existência, seja física, seja espiritual.”
“Sinta os sentidos (os
cinco) e suas percepções próprias.”
“Seus gostos. Não gosto
daquela fruta, gosto daquela árvore.”
“Se aquiete, acalme-se
e sinta sua mente. Estás vivendo. Além dos seus sentidos existe o Nermo. És
espírito. Passageiro do corpo. Mente sã, corpo são.”
“Você é isso. Tudo isso
e só isso. Em relação, em primeiro lugar, a você. Em último, a você também.”
“Você é você, Nermo. Pronto.
Vá dormir, agora. Vejo que está bastante cansado.”
Até onde quisermos ir.
até onde vai o homem?
até seus pensamentos
ou até seus sentimentos?
vai por entre ideias
ou quem sabe caminha de ações?
sabe do universo o mesmo que sobre si.
ser abstrato e infinito
seja e seremos homem
e só
até onde quisermos ir.
what is the limit for the man?
your thoughts
or your feelings?
a path through ideas
or perhaps moves by actions?
understands the universe as knows himself.
abstract and endless human being
be it and let it be
that's it
to where we would want to go.
MCP
até seus pensamentos
ou até seus sentimentos?
vai por entre ideias
ou quem sabe caminha de ações?
sabe do universo o mesmo que sobre si.
ser abstrato e infinito
seja e seremos homem
e só
até onde quisermos ir.
what is the limit for the man?
your thoughts
or your feelings?
a path through ideas
or perhaps moves by actions?
understands the universe as knows himself.
abstract and endless human being
be it and let it be
that's it
to where we would want to go.
MCP
25.9.13
XX. Perguntar.
Neroy. Perguntas. Que
perguntas? Nermo tinha lá perguntas? Tudo ia. Seu trabalho, sua vida pessoal, o
mundo. O mundo ia.
Claro que Nermo tinha perguntas. Ah, quantas ele tinha. Poderia passar o resto de sua vida fazendo perguntas.
Claro que Nermo tinha perguntas. Ah, quantas ele tinha. Poderia passar o resto de sua vida fazendo perguntas.
Nermo, enfim, achou a
oportunidade sensacional e logo escreveu sua primeira pergunta naquele papel
misterioso: Neroy, quem sou eu? Dobrou a folha, depositou-a dentro do envelope
e este foi para a caixinha. Foi trabalhar, já era hora de iniciar sua labuta
diária.
MCP
23.9.13
XIX. A carta.
Naquele dia, pela
tarde, bem tardizinha, Nermo recebeu uma carta.
Estava em seu jardim,
abriu a casinha das cartas e lá estava ela.
Era simples. Fina.
Destinatário, endereço. Não havia remetente.
Abriu. Uma página,
apenas. Dizia, em letras de forma bem escritas: pergunte. Só isso.
Nermo acreditava. “Quem
é você?”, escreveu. Fechou o envelope. Fechou a portinha. Foi-se.
No dia seguinte, logo
quando acordou, o envelope estava sob a mesa.
Quem, como o teriam
colocado ali? Não foi em busca dessa resposta. Estava interessado em uma e só
uma.
Abriu o envelope. A mesma folha. Com sua
pergunta escrita e, opa, uma resposta. Oito palavras. “Sou Neroy. Aquele que
responderá suas perguntas.”
20.9.13
ODE (OU BODE) AO (DO) TEMPO.
2.7.2013
Vida. Tempo. Sono. Compromissos espontâneos. Voluntários. Escolhidos por mim. Sim. Não é de outro jeito. Escolhemos. Fazer isso ou aquilo. Comprometemo-nos hoje, amanhã, dois dias, uma semana, meses, anos, por tempo indeterminado. Vai que vai. O ônibus que passa em cima das oscilações do pavimento, e, por cima das vicissitudes do viver, eu.
Escrevo, porém. E isso, de alguma forma, me conforta. Ao menos, nisso acredito. E pronto.
E o tempo? Ah, seu Tempo. Ah, se eu te pego, rs. Não dá. O tempo escorre por entre os dedos. Pego ele não. Só posso andar ao seu lado. Nem atrás, nem adiante. Tudo que faço agora pensando no futuro (de nada adianta fazer algo pensando no passado – não posso mudá-lo) dependerá do futuro, da passagem do tempo, da espera. Pura angústia. Tormento. Estresse. Não. Nem sempre. Não é esse o pensamento. “Se me diz que chegará as três, desde as duas estarei te esperando.” Grande Saint-Exupéry, o autor do clássico “O pequeno príncipe”.
Quando digo que não podemos andar adiante do tempo, penso que não posso tomar banho de lua cheia se a lua cheia só surgirá no firmamento em uma semana. Tenho que esperar essa uma semana. Ao revés, não poderei mudar o que aconteceu, o passado, acabado, perfeito. Foi. “Um tempo bom que não volta nunca mais.” Diz Thaíde em uma música.
O tempo é agora, enfim.
Mais: o tempo é perceptível. Sim. Sei que trafego nele. Vejo o dia raiar e, em seu final, findar com a achegada da noite que terminará dando ensejo a novo ciclo natural dos trópicos. Das 00:00 às 23:59 tenho um dia. Um novo dia. Perceptível. Descritível. Hoje choveu, fui em tal lugar, encontrei fulano, não fui ao trabalho, vi um morcego, comi jaca, dormi oito horas e cinqüenta minutos (ah, estou precisando). Posso descrevê-lo, mas, e aí se inicia, novamente, a velha questão singular e “amazing” que impressiona, mexe com a gente: a vida é o tempo.
O tempo é a vida. O tempo, chuf, passou. Tempo, vuuuuf, transcorreu. A vida, zusf, passou. Vida, zissssfi, encurtou. Issssstim, cheguei em Vinhedo. A vida, como o tempo, passa. Percebemos ela, veja bem, como percebemos o tempo.
Fica nisso. O momento para a vida é um mistério. Que dirá de amanhã? Do amanhã?
Podemos planejar, não podemos ter certeza da consecução do plano, porém. Senão não seria plano, é claro. Mas, um fato, uma certeza. Não. Não há isso nas escolhas humanas. Claro, há probabilidades. Só. Contudo.
Aí paramos (no tempo, claro) e pensamos: what a fuck, carai, vivo, estou vivo, logo vivo, estou vivendo. Podemos isso perceber. A questão é: ok, vivo, porra, que legal, que interessante. Fica nisso (novamente). Nada além. Não há conclusão. Não há resposta. Nada. Nadinha de pitibiribas. Neff. Nicas. None. None sense. What a fuck, enfim.
Era isso. O tempo e a vida são conceitos impróprios. Inspiram as mais diversas e misteriosas divagações. No fim, porém, não se chega, pois esse ponto já não é mais a vida, já não é mais o tempo. Não obstante, seja um lugar que só o tempo e a vida nos levarão.
Aguarde, meu caro.
Até lá, confesse, como o filósofo, que “só sei que nada sei”.
Se quiser escrever qualquer coisa sobre isso, pode.
MCP
XVIII. Rodoviária.
Jardimverderelva, 1º de
abril de 2013.
Manhã de outono, segunda-feira.
Perdi vários ônibus.
Não marquei o lugar com antecedência. Eis que tenho alguns minutos justificáveis
para escrever ao sol matutino. Ouvir os pássaros, ver a libélula dando pequenos
sobrevôos na lâmina da piscina e de vez em quando, tocando-a.
Sentar na beira da
mureta gelada de tijolos e absorver o ar da manhã. Muito bom.
São 7:35. Hora boa. O
sol já é soberano há mais ou menos uma hora e meia. O dia se inicia calmamente
para muitos. Para outros, há muito já se iniciou, rapidamente.
Para mim, caminha sem
pressa. Por mais preocupado que eu talvez esteja (um pouco), não ligo. Dou-me o luxo de vê-lo passar. Em seu ritmo. Não depressa ou devagar. Não. Mas, em seu
ritmo. No ritmo do tempo. Que é único. Que é como é e pronto.
Como essa história.
Essa história, Nermo acabava de pensar, solitária. Se solitária, mais devagar,
vagarosa, monótona? Solitária. “Sui generis”. Pensou. E, achou melhor essa
última definição. “Sui generis”. Como o tempo, como seu ritmo, particular,
única. E pronto. Afinal, todas as histórias, tudo, é
único, são únicas. E o contraste comanda a humanidade.
Nermo gostava da idéia
do contraste. Já havia escrito sobre ele. Contraste aquilo, contraste aquilo
outro. Coca-cola isso, parede verde isto. Coca-cola na parede verde. Sementes
de girassol. Um grande exemplo de contraste, achava.
As primaveras, a branca
e a vermelha, de sua “home sweet home” estavam lindas. Mais a branca do que a
vermelha. Cachos e mais cachos pendentes de pequenas e firmes flores brancas. (Ia
escrever florzinhas, mas a primavera não era bem uma florzinha – muitas eram bem
menores, como o jasmim.)
E era isso. Logo
deveria se encaminhar para a rodoviária. Tentaria pegar o das 8:30. Se
não conseguisse, leria o livro do “Sarry Throter”. O primeiro, pois lera do
quarto ao sétimo recentemente e quis ler os três primeiros (de novo). Achava a
C. F. Bowling ótima. Foi.
Foi se preparar para o
caminho da rodo. Rodo, rodo, rodo.
9.9.13
Primavera.
14/8/2013:
Primavera, primavera,
primavera chegue logo.
Embeleze a vida com
seus brotos e flores.
Traga a confirmação da
esperança por dias mornos e visão de renovação.
Ah, primavera, chegue
logo.
9/9/2013:
E os ventos mornos já
acariciam a noite.
Os brotos outrora na
espreita, hoje já ao sol.
Sol bom. Calor.
Blusa, já para o
armário. Boa menina.
XVII. Lero-lero.
Em quanto tempo se
conta uma história? Horas? Dias? Meses? Anos?
O que é uma história?
Acontecimentos? Personagens? Suspense? Aventura? Reviravoltas?
Só sei que essa
história é lenta. Não tem pressa. Nas pautas, nas linhas, vagarosamente ela se
arrasta. De vez em quando.
Dias ou outros, eis seu
narrador-personagem de volta a tecer descrições, novos personagens, bagunçar,
historiar. E, quem sabe, ao final dessas páginas, uma história surgirá. Quem
sabe? Ele não sabe. Não, não. Mas, escreve. Hoje, ontem e amanhã pretende,
pretendeu, escrevinhar. Escrevinhou. Linhas preencheu. Idéias no papel branco
com pautas registrou. Assim é, sempre foi assim, assim será.
Dia de sol, domingo de Páscoa. Nermo estava bem. Boa saúde, tranqüilo com a vida. Apreciando a vista
da janela. Ah, e que vista. Um lindo céu azul em contraste com as árvores
verdinhas cravadas no alto do morro. Algumas casas e um som forte, constante de
cigarras. Muitas cigarras.
Ele já havia comido
muito chocolate, mesmo antes do domingo. Quando era pequeno tinha que
esperar para ganhar ovos de chocolate. Crescido, não mais.
Ainda ia para o almoço
com a sua família e a família da prima, a Gertrudis. Gostava da Gertrudis. A
família dela era bacana também.
Era isso. Promessa de
um belo domingo de Páscoa. Mais um. Seu vigésimo sétimo, por certo.
Não estava com muita
inspiração, ânimo, disposição para escrever, é verdade.
Foi.
MCP
Assinar:
Comentários (Atom)