13.10.13

XXVI. Atropelamentos.



Outro dia. Outra manhã. Outro Norme. A história, da mesma forma, era diferente.
Mudamos de percepções a cada instante. Sobre nós mesmos e todas as interações que estamos sujeitos na vida. Que beleza. Que bom.
Por isso, esta história, escrita em pedaços não lineares e pelo tempo afora, muda (e como).
Tento manter certa ligação entre seu começo, meio e (espero) fim, mas o tempo anda tão depressa. A vida nos remete a uma infinidade de atividades que acabamos priorizando umas em lugar das outras e atropelamentos acontecem. Como este. Fui, preciso pegar a condução para o trabalho.  

XXV. Começo, meio e fim.



Norme acordara. Seja em 3ª pessoa ou em 1ª, não lembrava mais. Retomar o nexo, a coesão, o ritmo, pensou. Afinal, sua história agora estava sendo lida. “Uou. É mesmo.” “What a fuck.” Norme ou Nermo (Norme é melhor), vamos caprichar, então. Ritmar. Em ritmo, sim senhor.
– Bom dia, Norme.
– Quem? Ah?
– Sou eu.
– Eu? Neroy?
– Está pensando em mais alguém?
– Vou contar uma história. Sente-se e não se preocupe com o tempo. Apenas contemple a lua que vê pela janela e continue prestando atenção na minha voz e no canto do quero-quero que perambula no terreno ao lado. Às vezes, não devemos nos preocupar com explicações (muitas vezes), mas apenas ouvir, aprender, conhecer a voz que nos procura. Ok? Ok.
“Um senhor de aproximadamente 80 anos estava sentado no banco de uma pequena praça que ficava dentro de um parque. A praça era arborizada, fluía um pequeno córrego limpo e bem próximo dela. Um bambuzal fornecia sombra.
Roque, um jovem de uns 20 anos, viu esse senhor em um de seus passeios solitários matinais (de Roque e do senhor). O senhor escrevia em um pequeno caderno. Escrevia em japonês.
Que interessante, também estou com um caderno e poderia me sentar no banco ao lado, escrever e, assim, identificações começam e puxo papo com o senhor oriental, pensou Roque.
Não. Sim, sentou, começou Roque a escrever, porém não houve as esperadas identificações, a esperada oportunidade de Roque puxar papo. Momentos depois de sentar o senhor levantou-se e foi embora.
Nunca mais Roque viu esse senhor.”
– Veja, Norme, o dia já vem raiando. Veja que bonito o contorno do sol da manhã nas nuvens sobre a montanha.
– Estou vendo. E a história? Já acabou?

Sala de embarque.



São José dos Pinhais, 10 de outubro de 2013. 16:44. Aeroporto Afonso Pena. Sala de embarque.

Impressionante como um tampão de ouvido dá certa paz ao sujeito. Certo alheamento Diminuição sensível da zona moderna: barulhoooo. Se se fecharem também os olhos, então, vixe, ara, nada mal.
Estou cansado. Um pouco estressado. Não muito. Fecho os olhos. Medito por alguns minutos. Bom. Fácil. Revigorante. Com os tampões consigo bem ouvir minha respiração. Lugar solitário no meio de tanta gente. Muito interessante. Podem-se encontrar tampões (bons) em qualquer farmácia. Santo remédio. Relaxa mais que aspirina, rs.
A meditação então, vixe vixe. Tente. Feche os olhos, não pense em nada (faça um esforço, rs) ou pense no seu corpo – se sentir uma coceira no nariz, pense na sola dos seus pés (esteja sentado confortavelmente – não é para dormir) – não se mexa (se esforce – coçou a orelha, pense no seu cotovelo, sim, no seu cotovelo). Tenho certeza que gostará de meditar.

6.10.13

XXIV. A ordem das letras se distrai, a palavra se satisfaz.



Manhã zinha de inverno. Sem cartas/mensagens para o nosso herói.
Que belo contraste ele via pela sua janela. Silhueta da montanha com o raiar do dia. Árvores, construções, algumas luzes ainda contrastando, negras e amarelinhas, com o amarelo desbotado que ia se azulando ao que o céu subia subia. E se se olhasse mais lá no alto: a lua crescente.
Que belo o comecinho do dia. Friozinho de Jardimverderelva, ah, sim. Havia pedalado ontem e sentira o frio da cidade. Noite fria. Fria para dormir e para acordar. Mole não.
Estava contente, Seu Nermo. Havia começado a publicar textos de sua autoria em rede eletrônica, a chamada internet.
Ele sabia que podia, por certo, melhorar, estudar muito mais ainda, mas tinha consciência que possuía certa inspiração e correção e estilo e técnica de escrita. Afinal, como dizem, filho de peixe peixinho é. Além disso, andava lendo e já lera muito. Gostava muito de ler. Ultimamente, lia quase tudo que aparecia na sua frente.
Por aquela hora bastava. Nermo precisava morder algo para, mais tranqüilo, ler no caminho para o trabalho. Contavam com ele hoje.
Estava lendo a Regra, de São Bento. Estava gostando. Nermo ou Norme, como for, rs. A ordem das letras se distrai, a palavra se satisfaz.
Bom dia, Sartosí.

XXIII. Pensar horizontalmente.



“Nermo, meu caro.” Continuava a mensagem. “O trabalho que vivemos nem sempre nos apetece por uma razão muito simples e básica que, porém, nos é tão difícil notar: o nosso labor diário não é e nem será (nada é) definitivo. Nisso reside o nosso lamento: no agora, no sentir limitado, na ausência da visão horizontal. Não. Mude. Reflita. Aja. Busque, não lamente. O trabalho que desempenhamos só reflete um pequeno trajeto de nossas vidas, não nos deve significar permanência, resignação, desesperança.”
“Então, Nermo, reflita sob o aspecto apresentado. Ele trará a resposta a sua pergunta.”
Era essa a mensagem.
Novamente cansado, pois já era tarde e o feriado havia acabado, ele foi descansar. Acordaria bem cedo para trabalhar. Não no trabalho que considerava ideal para a sua vida, pensou. Mas, refletiu, no que lhe proporcionaria continuidade, lhe revestiria de recursos (como a autodeterminação) para a sua busca.
Pensou, Nermo, horizontalmente.

3.10.13

Sobre a velocidade.


Perceba a velocidade atual.
Quanto tempo você leva para responder?
Um “whatsapp”, um SMS, um e-mail, uma carta (uma o quê?)?
Longos telefonemas (fixos), onde estão vocês? Saudades.
Velocidade. Falhou. Quanto tempo para consertar? Ai, meu Deus, que demora.
Vum, vuuum, mais um carro, uma moto, um caminhão veloz. Muito veloz, acima dos limites de velocidade.
Zap, zaaap, lá se vai mais uma bituca pelo ar. Pam, tec tec teeec. Rapidamente.
Resolva. Faça. Pense.
Qual seu pedido, senhor? Senhor? Hum, hum. Ai, que cara lento. Me veja “x” + “y” – “f”. Ham, ok. Aqui está, senhor. Sim, não pedi o “f”, não quero o “f”.
Certo.

Qual a velocidade em que normalmente você caminha? Passos rápidos, apressados?
Qual a velocidade do seu teclar no computador? E no do seu “smartphone”?
Já jogou “candy crush”? Foi rápido o suficiente?
“Boa noite. No Haiti ainda não se sabe o número de mortos causados pelo terremoto. As equipes reclamam da falta de apoio das grandes potências na busca por sobreviventes. A seleção brasileira obteve a sua terceira vitória seguida no comando de Felipão. Dessa vez, contra a fraca seleção da Romênia. O dólar subiu 9% em relação ao mesmo período do ano passado. Turistas que planejaram suas férias com antecedência desistem de viajar. O Brasil descobre mais petróleo na baixada santista. A presidente diz que já possuímos reservas suficientes para a subsistência nos próximos anos. São Paulo sofre novamente com arrastões em bares e restaurantes. Só nesta semana foram cinco em diferentes pontos da cidade. A Bahia será palco do Rock in Rio 7 neste ano. Apresentações de Sting e U2 já foram confirmadas. Boa noite.”
Pegou tudo? Refletiu alguma coisa entre uma notícia e outra? Não deu tempo? Ah, tudo bem, reflita agora, então. Mas, agora tem novela. Hum, é mesmo, esqueci. Amanhã, quem sabe.

E o computador? Click, click, mouse pra lá, pra cá, abre tal programa, tela, pém, tela thum, fecha, abre de novo, ih, travou. Putz, click, click, click. Nada. Nada ainda. Ctrl+Alt+Del – finalizar, finalizar. Reiniciar, desligar. Nada. Tomada, bateria. Que desespero. Computador idiota.

Velocidade.
Velocidade das conversas, do trabalho, do estudo, da vida.
Resumos, tópicos, oi e tchau.
Relações humanas simples, rápidas, superficiais, Bém? Bém bém. Ótimo.
Na naum.
Modelos, pré isso, pré aquilo. Hum, mas quanto tempo? Tudo isso?
Prazos. Urgh. Urgh, urgh, urgh.

Enfim, escove seus dentes com calma. Preste atenção no que você está fazendo.

MCP

2.10.13

XXII. Trabalho.


Nermo gostou da resposta. Na verdade, já pensava ser único e espírito pela meditação. Mas, ficou feliz pela confirmação de seus pensamentos.
Ele queria mais, porém. Não via a hora de nova oportunidade para perguntar.
Ela veio. Em uma véspera de feriado, menos cansado (como a mente é persuasiva), viu um envelope amarelo em sua mesa.
“Como Maomé não foi à montanha, a montanha veio a Maomé. Escreva sua pergunta abaixo.”
Escreveu. “Neroy, desculpe, as semanas têm sido corridas, sá comé, né?! De toda sorte: como encontrar um trabalho ao mesmo tempo prazeroso e de suficiente produção de riqueza individual?”
“A arte e a religião são alavancas de propulsão. O resto depende de nós. Impor limites, organizar o posto de trabalho.”
“Continuamos em outro dia. Vejo que está que não se aguenta de cansaço (que sempre vem).”